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NOTÍCIAS

FELÍCIO ROCHO

Doação de Órgãos: por que devemos falar sobre isso o ano inteiro?
09 de setembro de 2026 Saúde

Em setembro, o Brasil dedica atenção especial à doação de órgãos, tema que ganha destaque no Dia Nacional da Doação de Órgãos, celebrado em 27 de setembro. Mas por que falar sobre isso o ano inteiro? A resposta envolve números, histórias e uma decisão que cada um de nós pode tomar ainda em vida. Neste artigo, quero convidar o leitor a refletir sobre um gesto simples na intenção, mas capaz de transformar o destino de muitas pessoas.

 

A história dos transplantes no Brasil começou em 16 de abril de 1964, no Hospital dos Servidores do Estado (HSE), no Rio de Janeiro, quando uma jovem de 18 anos recebeu o rim de uma criança. Desde então, a medicina avançou muito: a sobrevida dos pacientes e o tempo de funcionamento dos órgãos transplantados cresceram de forma significativa.

 

Mais recentemente, em março de 2024, o mundo testemunhou o primeiro transplante entre espécies diferentes, o chamado xenotransplante: um homem de 62 anos recebeu o rim de um porco geneticamente modificado. O feito abre caminho para um futuro promissor, embora ainda distante da prática cotidiana.

 

Apesar desses avanços, a realidade brasileira ainda é dolorosa. Segundo o Registro Brasileiro de Transplantes (RBT), publicado anualmente pela Associação Brasileira de Transplante de Órgãos (ABTO), o Brasil mantém o maior programa público de transplantes do mundo.

 

Em 2024, o país ocupou a 4ª posição em número absoluto de transplantes de rim e fígado entre 35 países. No entanto, quando se considera o potencial de procedimentos que poderiam ser realizados diante do tamanho da nossa população, o Brasil cai para a 23ª e a 24ª posição, respectivamente, em uma lista de 45 países. Ou seja: poderíamos estar fazendo muito mais.

 

Os números de 2025 confirmam esse desafio. Ao final do ano, mais de 73 mil brasileiros aguardavam na fila do Sistema Nacional de Transplantes. Foram realizados 27.583 procedimentos, mas outros 51.858 pacientes ingressaram na lista de espera.

 

Mais de 27 mil pessoas morreram enquanto aguardavam a oportunidade de tratamento. Vale lembrar que um único doador pode salvar ou melhorar a vida de até oito pessoas, com a doação de órgãos como rins, fígado, intestino, pâncreas, coração e pulmões, além de tecidos como córnea e pele.

 

A doação também pode ocorrer em vida, como no caso de rim e fígado, após rigorosa avaliação médica dos riscos cirúrgicos e do desenvolvimento de doenças ao longo dos anos. Para muitos pacientes, essa é uma alternativa real diante de filas que podem demorar.

 

Já o doador falecido é a pessoa que teve a morte cerebral comprovada por exames e avaliação médica, conforme previsto em lei, e que não apresenta qualquer possibilidade de recuperação. É nesse momento de dor e angústia que a família é abordada sobre a doação.

 

É exatamente por isso que conversar sobre o assunto antes é tão importante. Não é necessária documentação escrita para manifestar a vontade de doar: como a autorização final é dada pela família em caso de morte encefálica, é fundamental que parentes e amigos saibam o que pensamos sobre o tema.

 

Acredito que o trabalho e o comprometimento dos profissionais envolvidos com a atividade transplantadora no Brasil contribuem para o aumento do número de procedimentos e para a efetivação da doação no país. Ainda assim, há muito a ser feito, e cada um de nós pode participar dessa mudança.

 

A doação de órgãos não encerra uma história; ela permite que a vida continue na vida de outra pessoa. Em um país com o maior programa público de transplantes do mundo, mas ainda distante do seu potencial, cada conversa pode fazer a diferença. Pare, pense e doe: a vida continua.

 

Escrito por: Rafael Lage Madeira - Médico Nefrologista Membro da equipe de Transplantes do Hospital Felício Rocho

Doação de Órgãos: por que devemos falar sobre isso o ano inteiro?